Sunday, April 15, 2007

Comércio transatlântico: venda de roupas aliada a transformações culturais


Comércio transatlântico: venda de roupas aliada a transformações culturais

Angolanas que chegam ao Brasil para comprar roupas, revendidas em seus países de origem, entram em contato com realidade política, social e econômica bastante diferente da vivenciada em seu país, que ficou 40 anos em guerra civil

Texto e fotos por Juliana Borges

Bairro central da capital paulista, o Brás é um lugar de migrantes, uma mistura de bolivianos, paraguaios, nordestinos, paulistanos, guinenses, libaneses e, também, de angolanos. Por onde quer que se ande, nas lojas, nas ruas, entre os camelôs, nos mercados, na feira da madrugada - um mercado aberto que começa às 3h30 da manhã -, nos hotéis ou nos restaurantes, a presença desses últimos é quase sempre notável, seja pelo colorido das roupas e o primor dos penteados das mulheres, nas vozes com sotaque que estão quase sempre a falar alto e, principalmente, comemorada pelos dólares que trazem do seu país natal. Alguns, geralmente estudantes, vivem em São Paulo. Mas a maioria está apenas de passagem.

Centenas de sacoleiras angolanas que quase diariamente atravessam o Atlântico e desembarcam em São Paulo à procura de produtos para serem revendidos em seu país de origem. Elas compram quantidades enormes, despachadas por transportadoras. O lucro obtido com a transação paga a passagem de avião, que custa mais de mil dólares, e ainda garante o sustento dessas mulheres.

Voltar a Angola para vender roupas brasileiras é uma das saídas para driblar a falta de emprego
O trajeto que as sacoleiras angolanas atualmente percorrem várias vezes por ano é uma rota histórica. Cinco séculos atrás, seus ancestrais fizeram o mesmo caminho a bordo de navios portugueses e chegaram ao Brasil na condição de escravos. Vinham oprimidos, maltratados, maltrapilhos. Bem diferente das sacoleiras hoje. Os recepcionistas dos hotéis as chamam pelos nomes, conhecem seus parentes que também já estiveram aqui a fazer compras e fazem de tudo para agradar. Os taxistas as esperam muito tempo na porta sem reclamar enquanto as angolanas se arrumam para sair. Os lojistas mandam seus vendedores buscarem as clientes na porta dos hotéis e lhes oferecem descontos a que brasileiros não têm direito. A dona de um hotel faz questão de hospedar suas melhores clientes na sua própria casa. O africano, que no passado veio ao Brasil na condição de escravo e historicamente sempre ocupou a incômoda condição de inferior e assistido, hoje é visto com outros olhos. Ele recebe toda a atenção.

Essa mudança começa por uma motivação econômica, mas tem resultados muito mais abrangentes. "Diferentemente do negro brasileiro, a angolana chega aqui sem conhecer seu passado como escrava, sem nunca ouvir que tem cabelo ruim, sem saber que está num país em que existe a idéia de ser feio por ser negro", afirma Abdu Ferraz, fundador da organização Liga dos Amigos e Estudantes Africanos (LAEA), que tem por objetivo assegurar a inclusão do negro na sociedade brasileira. "Ela não tem vergonha de ser negra, não precisa olhar para baixo ou arquear os ombros. Isso gera um impacto grande em quem lhe recebe", completa. "O brasileiro não está acostumado a enxergar o africano em condições iguais ou até superiores a ele. A presença das angolanas em São Paulo está começando a mudar esse cenário."

Do outro lado do oceano, as mudanças perpetuadas pela presença das sacoleiras no Brasil estão sendo igualmente profundas. Essas mulheres estão tendo contato constante com uma realidade completamente nova. Acostumadas ao comércio nas ruas, elas começam ver uma nova forma de organização econômica. Vivendo em um país que tem o mesmo presidente há 26 anos, elas entram em contato com debates políticos na televisão. Até pouco tempo atrás dependentes financeiramente de seus maridos, elas começam e ter seu próprio sustento e, com isso, podem atender melhor às suas próprias vontades. "O contato constante como Brasil faz com que elas, aos poucos, deixem de vender nas ruas e comecem a vender em suas casas. Depois, passarão a comprar manequins e montar pequenas vitrines e, um dia, montarão lojas. É um processo de aprendizado", opina Ferraz.

Algumas sacoleiras, apesar de terem um certo poder econômico para virem ao Brasil várias vezes por ano, não têm acesso a infra-estrutura básica. "A pobreza é muito relativa. Elas movimentam um dinheiro que permite comprar um chuveiro ou um gerador, mas elas não têm esses aparelhos em suas casas. E, quando vem ao Brasil, não levam, porque não têm essa lógica, essa cultura", afirma Ferraz. Mas, aos poucos, elas vão incorporando novos hábitos. "Quando elas vêm e ficam num quarto com chuveiro e ar condicionado, algum tempo depois ela também vai querer ter isso lá. E o vizinho dela vai ver o chuveiro e também vai desejar ter um chuveiro também. E, assim, devagar, a mudança vai se perpetuando", completa.

Para facilitar o contato entre as duas partes - as sacoleiras e as lojistas - há entre elas uma figura importante, cuja função é fazer o meio de campo: os guias. Eles geralmente também são estudantes angolanos que moram no Brasil e conhecem melhor os hábitos daqui. Os guias estão sempre atentos às novidades. Eles se encarregam de acertar a entrega das mercadorias no hotel, conhecem as lojas em que as suas conterrâneas preferem comprar e sabe negociar com os vendedores. "Mesmo as que vêm sempre ao Brasil gostam de pegar um guia porque estão num país estranho", diz o estudante de administração angolano Roni, de 26 anos, que está no Brasil há seis anos. "Atualmente, o que está mais vendendo é cabelo, que é usado para fazer penteados", Apesar de contar com auxílio financeiro da família, ele precisa encontrar maneiras de engordar o orçamento e o trabalho de guia é uma saída para isso.

Aqui no Brasil, Roni fez amizades com muitos libaneses e acabou se convertendo ao islamismo. A religião o ajuda a driblar a falta que seu país lhe faz. Seus olhos ensaiam ficar marejados quando ele fala da saudade da família, mas ele sabe que é melhor ficar até terminar a faculdade. Seu sonho é montar uma academia de ginástica em Angola, nos moldes das unidades das grandes redes brasileiras. "Estou tentando arrumar um sócio. Agora é a hora certa para investir. Com o fim da guerra, o país está crescendo demais", diz.

Com o fim da guerra civil, Angola voltou a receber investimentos estrangeiros, inclusive brasileiros, impulsionando sua economia
Roni está coberto de razão. Há quatro anos vivendo em paz, Angola voltou a receber altos investimentos estrangeiros e sua economia está se reaquecendo rapidamente. Luanda hoje se parece um canteiro de obras, de tantos empreendimentos que estão sendo erguidos. Um dos maiores está sendo feito pela a construtora brasileira Odebrecht - ainda em 2007, ela vai inaugurar o primeiro shopping center do país.

Angola oferece ótimas oportunidades de negócio e aqueles que souberem explorá-las agora serão beneficiados. São pessoas com uma mente mais empreendedora, como Roni, que ajudarão a promover uma profunda transformação no país. "A classe média angolana é formada por meninos que estudaram no exterior, tem graduação e mestrado e que estão hoje na faixa de 40 anos de idade. Eles têm acesso ao orçamento do estado, a linhas de financiamento e estão começando a instalar as primeiras fábricas angolanas próprias", analisa Ferraz. Depois que esse processo já estiver mais consolidado, ele provavelmente irá ameaçar uma atividade que, há séculos, se perpetua na África: o trabalho das sacoleiras.

Clique abaixo para ler outras partes da reportagem:

Parte I - A saga de mulheres africanas que cruzam o oceano para comprar roupas no Brasil
Parte II - Das novelas brasileiras aos mercados populares da África

* Esta reportagem foi publicada em parceria com a revista Problemas Brasileiros
Reporter Brasil
http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=981

3 comments:

Tadeu said...

Vendo roupas usadas.

Tadeu said...

Vendo roupas usadas.ftadeuvital@gmail.com

Tadeu said...

Guia para melhores compras em São Paulo.FTADEUVITAL@GMAIL.COM