Tuesday, January 09, 2007

"Salvador Negroamor"

"Salvador Negroamor" leva mais de 1500 imagens às ruas da capital baiana Da Redação

Sérgio Guerra/ Divulgação

Retrato de Sérgio Guerra na exposição Salvador Negroamor

Retrato de Sérgio Guerra na exposição Salvador Negroamor

Uma exposição individual, em lugares públicos em diferentes "eixos" de Salvador, de 8/1 a 16/2, marca o lançamento de um movimento pela valorização da cultura africana e da auto-estima dos afro-descendentes no Brasil. Como parte do projeto "Salvador Negroamor", painéis, outdoors, muros, praças e fachadas exibirão 1501 retratos, tirados por Sérgio Guerra, de anônimos e líderes culturais e religiosos da capital baiana.

As fotos foram selecionadas por Alberto Pitta, artista plástico e presidente do Cortejo Afro, a partir de um repertório de 16 mil imagens de Guerra, colhidas nos últimos meses. O fotógrafo pernambucano, que divide seu tempo entre Angola, onde cuida de um escritório de comunicação do governo, e a Bahia, já havia realizado no começo de 2006 a exposição "Lá e Cá", que retratava as semelhanças entre o cotidiano da Feira de São Paulo, em Luanda, e a de São Joaquim, em Salvador.

O projeto "Salvador Negroamor" inclui a criação de uma ONG, de um portal na internet dedicado a informações e serviços para o público negro e de um CD com músicas de Virgínia Rodrigues, Lazzo Matumbi, Margareth Menezes, Arnaldo Antunes e outros. A meta do movimento é criar, em 2009, um fórum mundial e permanente de assuntos relacionados à África, com sede em Salvador
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Célebres anônimos

Pessoas retratadas pelo fotógrafo Sérgio Guerra não escondem a alegria e o orgulho de ver suas imagens pela cidade

Flávio Costa

Ela nunca sorriu para fotos porque ficava sempre tensa e tímida diante de uma máquina fotográfica. A exceção veio numa manhã de outubro quando ao lado do tio, o professor de teatro Alessandro Barreto, e a prima Stephanie Santos Silva, a estudante Fernanda Conceição, 14 anos, posou para lentes de Sérgio Guerra. Os sorrisos sinceros dos três são vistos no enorme frontlight localizado num dos principais cartões-postais de Salvador, o Farol da Barra. Ao ver seu retrato na manhã de ontem, a garota não pôde conter a sensação de alegria misturada com um pontinha de orgulho. “Nunca iria imaginar que teria uma foto minha aqui. O pessoal lá da minha rua fica dizendo que agora a gente vai aparecer na novela”, afirma Fernanda, que é moradora da Saramandaia.

Fernanda, Stephani e Alessandro são célebres anônimos dentre as centenas de outros que posaram para exposição a céu aberto Salvador negroamor, do fotógrafo Sérgio Guerra. A idéia é valorizar e resgatar a auto-estima de pessoas afrodescendentes, que constituem a maioria da população da cidade soteropolitana. As 1.501 fotos selecionadas de um grupo de 16 mil retratam o cotidiano das pessoas comuns da cidade, ao mesmo tempo que chamam a atenção para a situação de invisibilidade que elas vivem na capital baiana. Até 16 de fevereiro, as imagens estarão espalhadas em postêres, postes, outdoors, estruturas fixas de grande visibilidade, estações de transbordo, painéis em ônibus coletivos em seis circuitos de Salvador: o turístico, praias, bairros espaços populares, grandes avenidas, subúrbio.

Para o professor de teatro que posou ao lado das sobrinhas, o mais importante da exposição é que ela dá a oportunidade da própria cidade olhar para si mesma, o que não ocorre por conta do preconceito racial. “A reação das pessoas da Saramandaia foi de orgulho porque elas começaram a se ver ali, quando viram minha foto, ou seja, se reconheceram. Elas estão acostumadas a serem marginalizadas por conta do lugar onde moram e pela cor de sua pele. Esta exposição pode ser um pontapé para uma mudança deste quadro”, afirma Alessandro, que realiza trabalho sociais em vários bairros periféricos de Salvador.

Cidadania - Sua fala encontra sintonia com o pensamento do próprio Sérgio Guerra, que, em reportagem publicada no caderno Folha da Bahia, declarou: “Salvador é a maior cidade negra fora da África e precisa legitimar isso. Nós temos a capacidade de ser a capital mundial da diáspora africana. Mas é uma cidade dividida, preconceituosa e, muitas vezes, racista. É preciso entender que a sociedade não é a Pituba, a Barra, é muito maior do que isso e tem que ser pensada de uma forma geral, não só pelos políticos, mas pela sociedade civil. Como cidadão, tenho que entender que o problema de Cajazeiras, Fazenda Coutos, Nova Brasília tem a ver com o ‘meu’ problema da Barra”. Ele percorreu, ao longo de 2006, comunidades como Plataforma, Periperi, Paripe, Alto de Coutos, Bate Coração, entre outros, para registrar situações cotidianas destes lugares e promover uma ligação entre o centro e a periferia.

A professora de história carioca, Cláudia Mara Souza, 49 anos, fez questão de tirar foto com o trio que estava no Farol da Barra. Fazendo pós-graduação em história do povo africano no Brasil, ela se diz maravilhada com a idéia da exposição. “É uma grande sacada e uma excelente homenagem para a cidade e seu povo”. Ela e o marido – o analista de sistema Róbson Souza, 45 – chegaram na segunda-feira na cidade e já tinham visto fotos da exposição na orla. “Quando eu vi as imagens, pensei: ‘puxa, eles dão destaques às pessoas que fazem realmente a cidade que ela é, pessoas anônimas e simples’”, afirmou Róbson.

Moradora do bairro de Fazenda Coutos, subúrbio da cidade, a vendedora ambulante, Sônia Machado, 47 anos, se dizia feliz com a exposição, da qual não participou. “E por que não deveria sentir isso? Afinal, é meu povo, a minha cor que está sendo mostrada. Eu acho muito importante que uma coisa dessas aconteça”, dizia Sônia enquanto observava as fileiras de fotos no Campo Grande.

Aqui Salvador, Correio da Bahia, 11.01.2007
http://www.correiodabahia.com.br/aquisalvador/noticia_impressao.asp?codigo=120278





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